UMA PROVINCIA DO SUL
Era uma vez, num certo país onde vivia um povo que pensava ser melhor que os outros. Viviam numa província ao sul desse lindo país. Por conta de sua descendência européia, alguns pensavam estar vivendo no velho continente, todavia, sem a herança histórica e educacional inerente aqueles.
Localizada na America Latina o povo que nela vivia tinha como maior preocupação a aparência deles e dos outros. A fama de ter as ruas mais limpas do país, de serem preocupados com meio ambiente, desenvolveu neles um caráter soberbo.
Gloriam-se em dizer que um produto para ter aprovação nacional tem que ter o lançamento na província deles. Afinal de contas, senso crítico com o que pertence aos outros não tem medida, porém, falta-lhes a autocrítica.
A comida preferida nessa provincia e a banana, sevida como caviar e o guarana servido como champanhe. Nas missas, como não tem por hábito o cumprimento, quando o fazem mais se parecem com o robocop de tão durinhos. Tudo é muito artificial.
Seus cidadãos são normalmente conhecidos pela falta de educação. Se entrar num elevador com mais pessoas, não as cumprimentarão. É como se os demais não estivessem ou não existissem naquele ambiente.
Os serviços de hotelaria e restaurantes nessa província estão aquém de ser considerados pelo menos bom. A forma rude como tratam os peregrinos de outras províncias que chegam e a desqualificação profissional transformam esse lugar para viagens de lazer num pesadelo.
Nos fins de semana, quando saem para fazer suas refeições, gostam de mostrar suas jóias e suas carruagens, ainda que, em alguns casos a refeição seja paga parceladamente. O que importa é estar presente e aparecer para os amigos.
As roupas usadas pelos súditos dessa província são uma atração a parte, pois em sua maioria os cidadãos não conseguem comprar a roupa produzida no país, mas importam do país vizinho, cuja indústria da falsificação e pirataria só são superadas por outro do Oriente. Nessa província a marca da roupa que se usa é mais importante do que quem a usa.
Gloriam-se em ser a segunda província do pais em numero de carruagens importadas, o que não dizem a ninguém é que o pagamento está sempre atrasado e em alguns casos os fiscais do reino já estão tentando localizá-las para apreensão.
Quando dentro dessas carruagens, vestidos de uma armadura, desrespeitam o pedestre. Acidentes de carruagens de pessoas influentes nessa província são arquivados e seus condutores isentados de responsabilidade.
Para esse povo os valores mais expressivos como amor e respeito ao próximo não tem valor algum. Sempre desconfiados, agem como se todos fossem suspeitos de algum crime, menos eles. Sao reticentes quando próximos de outras pessoas, talvez por receio de que a máscara usada por cada um seja removida e a verdade que cerca seu estilo de vida se torne visível. O lema do povo nessa província é: “somos um povo frio, por isso somos fechados”.
Não creio que haja nada de pejorativo em se mencionar que alguém viva na periferia, todavia, nessa província isso se constituí numa grande ofensa. Pois ali, todos querem parecer o que não são. Todavia, que beneficio há em parecer o que não se é?
Os homens nascidos nessa província são conhecidos como ignorantes, sem educação e rudes. As mulheres são vazias e fúteis, preocupadas em projetar uma imagem irreal de si mesmas. Os relacionamentos são superficiais e nada duradouros.
A maior curiosidade do povo que vive nessa província é saber o sobrenome daqueles que se aproximam deles, onde vivem e o que fazem. Se o sobrenome for de família tradicional, se o bairro for “nobre”, e o fruto do trabalho for fortuna, tudo bem, o espaço esta conquistado. Contudo, se não for assim, espere a rejeição.
A hipocrisia, a falsidade e o engano são características muito fortes de alguns cidadãos privilegiados dessa província. Tem nome e sobrenome e uma lista de outros cidadãos a quem não pagam. São interesseiros, só se relacionando para tirar vantagem dos que deles se aproximam.
As famílias estão fragmentadas, filhos desajustados e drogados, mulheres levianas, homens infiéis, sociedade desequilibrada, pois ninguém decide remover a máscara e confrontar a realidade. Nessa província tudo fica debaixo do pano, todos querem aparecer e estar com grupos que estão nas colunas sociais.
Os negócios nessa província tem tempo pra abrir e fechar as portas. Não duram, pois a insatisfação do povo é tão imensa que não há como satisfaze-lo, estão sempre procurando novidade e encontram a repetição daquilo que um dia já foi. O que hoje se chama sertanejo, amanha estará funcionando no mesmo lugar, freqüentado pelas mesmas pessoas só que com o nome de caipira. São tão soberbos que não conseguem reconhecer a insatisfação dentro deles.
Se consideram intelectuais, ecléticos e tantas outras coisas, porém as mulheres e os jovens dessa província tem fama de alcoólatras, mas não conseguem resolver o problema, pois essa não é sua prioridade. Falam na realização de trabalhos sociais, mas não tem dinheiro para investir nessa área. Querem que outros paguem, porém, que a fama fique com os cidadãos dessa província.
Enfim, essa província que se vê como a melhor do país, deveria rever valores e conceitos que regem uma sociedade normal e mais humana e aplicá-los a si, pois quem sabe assim, pudesse merecer o titulo de melhor do país.
Gerson Wheber
Gerson Wheber
